HISTORIA DO FADO

FADO
Uma expressão portuguesa


Significado:

Para que se entenda este género musical tipicamente português, é importante entender a dimensão e o significado do vocábulo pelo qual é conhecido.

Fado é um substantivo masculino que deriva da palavra fatum do latim, a mesma palavra que deu origem a fada. É sinónimo de destino, sina, sorte, fortuna e fatalidade.


Expressão musical:

O fado na sua forma habitual é cantado por uma só voz – a voz fadista; mas também pode ser instrumental ou interpretado por mais vozes e ao desafio, o que caracteriza o diálogo das desgarradas. É acompanhado normalmente por guitarra portuguesa, viola de fado e viola baixo, podendo-o ser também por outros instrumentos como contrabaixo, piano, violoncelo, violino e até mesmo por orquestra.

Quanto à indumentária, a mulher fadista habitualmente apresenta aos ombros um xaile sobre um elegante vestido, enquanto o homem traja normalmente de fato.

Musicalmente, o fado assenta numa estrutura rítmica baseada em compassos de divisão binária. A base harmónica é efetuada pela viola, utilizando os bordões como acompanhamento de baixo na tónica e na quinta alternadamente, usando as restantes cordas como suporte harmónico. A guitarra portuguesa embora participe na harmonia tem um papel mais melódico de contracanto, acompanhando a voz ou alternando com esta. A voz embora ritmicamente esteja sujeita ao suporte rítmico, tende a libertar-se, expandindo-se por vezes livremente com ênfase. Os fados terminam na sua maioria em cadência perfeita, havendo algumas exceções no fado menor que finaliza em suspensão.

A base rítmica e melódica do fado assenta na trindade do Fado Menor, Fado Corrido e Fado Mouraria que estão na origem de todos os fados tradicionais.

Uma das especiais características do fado que o torna tão singular relativamente a outros géneros musicais, consiste em ser cantado unicamente com poemas, tendo trazido para esta arte muitos poetas populares, eruditos, contemporâneos e clássicos.

Os fados tradicionais têm a particularidade de poderem ser cantados com poemas diferentes desde que respeitem a métrica de quadra (4 versos com 7 sílabas), quintilha (5 versos com 7 sílabas), sextilha (6 versos com 7 sílabas), decassílabo (quadras com 10 sílabas), versículo (4 versos com 7 sílabas mais 3) e Alexandrino (8 versos com 7 sílabas). O mesmo fado pode também ser interpretado de forma diferente, o que define o estilar ou estilizar de cada fadista.

Fado é também o nome comum atribuído à própria canção, podendo ser alegre ou triste dependendo da narrativa. Em suma, o fado expressa as venturas e desventuras da história e do quotidiano do povo português.

A partir de 1930, surge o Fado Canção no teatro de revista que se distingue por ter refrão, afastando-se da sua génese tradicional que não tem refrão, aproximando-se de outras músicas mais populares.

Pode-se também ter em conta o Fado Musicado que se distingue por ser harmonicamente mais rico com arranjos mais sofisticados, do qual o compositor Alain Oulman foi forte impulsionador, quando encetou parceria com Amália Rodrigues no início de 1960. Apesar de ter gerado alguma polémica na época, esta foi uma forte tendência que veio para ficar até aos dias de hoje.

Com características bem diferentes existe ainda o fado de Coimbra, que apesar de estar instituído como tal, as gerações mais antigas preferem chamar-lhe canção ou balada de Coimbra.

 

As origens:

A origem do fado enquanto expressão musical continua a ser muito debatida entre os estudiosos e parece estar longe de reunir consenso. O que parece ser unânime é que se tenha desenvolvido no caldeirão cultural lisboeta despontando como uma música portuária, tendo-se afirmado como um estilo musical singular português.

Pelos factos que se conhecem tudo indica que o fado tenha surgido no início do século XIX, a primeira artista a tornar-se conhecida foi a lendária Severa, apesar de se conhecerem outras antes desta.

Algumas das origens que populares e estudiosos mais apontam são: a medieval, a portuguesa, a árabe, a afro-brasileira e a marítima. Talvez todas estas origens tenham estado na origem do fado, certamente contribuíram para a sua existência, quem sabe tenha o fado nascido num episódio de sorte como o seu próprio nome, fruto da inspiração de um desconhecido...


Evolução do fado pelo século XIX:

O fado começa por se manifestar nas zonas mais antigas e pobres da cidade e a ser cantado em tabernas, bordeis, ruas e pátios de Alfama, Castelo, Mouraria, Bairro Alto e Madragoa. O fado baseava-se em versos populares que espelhavam o estado de alma do povo na época que vivia um quotidiano conturbado. Desde a sua origem que ficou ligado às classes mais desfavorecidas, adquirindo uma conotação depreciativa nas classes mais abastadas.

No segundo quartel do século XIX o fado começa a ganhar dimensão com Maria Severa Onofriana (1820-1846), sendo a primeira cantadeira de fados a tornar-se popular, e o fado começa a ser conhecido nas ruas de Lisboa.

Na segunda metade do século XIX, levado pelas correntes do romantismo numa toada musical melancólica, exprimia o desalento do povo perante a instabilidade vivida na altura, e assim ia dando ânimo ao dia-a-dia das gentes mais pobres.

No volver da década de 1880, os aristocratas que frequentavam os espaços boémios das vielas de Lisboa onde o fado se cantava e tocava, seduzidos por esta arte, levam o fado para os salões nobres, onde passa a ser acompanhado ao piano, sofrendo uma substancial evolução literária e artística, deixando de estar somente restrito ao domínio popular. O fado rapidamente se tornou uma canção nacional e transversal a toda a sociedade.


O fado no século XX:

No princípio do século XX, o fado continua a evoluir poética e musicalmente, ganhando maior complexidade rítmica e riqueza melódica, conquistando novos palcos. Foi nestes anos que surgiram os primeiros livros sobre o tema e as primeiras gravações em Portugal.

Com a monarquia em pleno declínio e atendendo à popularidade do fado, os republicanos passam a usar o fado para fazer passar as suas ideias através de melodias e versos simples.

Apesar da sua ascensão, o fado chega a ser proibido nos anos 20 pela ditadura militar que põe fim à primeira república. Em 1927 surge a regulamentação que obriga os artistas a possuírem carteira profissional para publicamente poderem actuar em espaços previamente autorizados para o efeito.

A partir dos anos 30, com a profissionalização dos artistas e com o aparecimento dos grupos de fado, o fado é levado a todo o território nacional e começa a ser projectado no mundo, afirmando-se como a grande canção nacional nas décadas de 30 e 40, ganhando maior espaço na literatura, teatro, cinema, rádio e indústria discográfica.

Nasce, então, a figura do fadista enquanto artista, que passa a brilhar nos palcos de teatro, nas telas de cinema, na rádio e a fazer-se ouvir em disco. Com o fadista surgem as casas de fado, estas já bem diferentes das tabernas e dos bordéis de outrora, que se instalam nos bairros históricos e promovem o convívio no seio do milieu artístico.

A poesia no fado continua fiel às suas origens, apesar da censura pela ditadura salazarista aos temas de cariz social e político.

Até meados do século XX, o fado continua em franca expansão, época de grande fulgor artístico com o aparecimento de grandes intérpretes de excepção.

O Fado atinge assim a sua maioridade como expressão musical e cultural nacional, nas décadas de 50 a 60 verifica-se a definitiva internacionalização do fado com Amália Rodrigues na primeira figura.

O fado marcou presença assídua no cinema português dos anos 40 até aos anos 70 do século XX, constituindo grandes êxitos de bilheteira. Em 1957, com o início das transmissões da Rádio Televisão Portuguesa e até 1974, o fado passa a ser difundido regularmente pelo ecrã, o que permite a associação da imagem dos fadistas à sua música e são muitos os artistas em ascensão.

Em 25 de Abril de 1974, com o fim da ditadura e da censura, com a implementação da democracia e da inerente liberdade de expressão, o movimento da canção interventiva impõe-se sobre o fado. A apropriação do fado pelo antigo regime implica conotações negativas, o que veio trazer ao fado um significativo decréscimo de popularidade que só viria a ser retomada no fim dos anos 80.

Em 1986, Portugal é oficialmente país membro da Comunidade Económica Europeia. A abertura das fronteiras veio contribuir para que esta fosse uma década de viragem definitiva para novos mercados e também para novos fados.

Nos anos 90, o mundo muda por completo a sua forma de comunicar com a propagação da internet. É também nesta década que surge um novo fado com novos artistas como Mísia, Paulo Bragança, Dulce Pontes ou Camané. Este novo fado representa uma metamorfose do passado para o futuro, abrindo novos caminhos no novo milénio.

No cair do pano do velho milénio, o fado perde a sua maior voz - Amália Rodrigues que faleceu em Lisboa a 6 de Outubro de 1999.


O fado no novo milénio:

O início do novo milénio caracteriza-se pela mudança na forma de ouvir música. A música gradualmente vai deixando de ser ouvida no tradicional hi-fi, ficando este remetido para audiófilos ou uso profissional. Hoje a música ouve-se nos computadores, Ipod ou nos telefones celulares e toda uma nova indústria cresce em torno destas novas tecnologias.

O início deste novo século revelou-se muito próspero com o aparecimento de vários artistas como Ricardo Ribeiro, Ana Moura, Carminho entre outros.

É recorrente ver alguns artistas portugueses sob o desígnio do fado nos melhores do ano, em revistas ou rádios internacionais e a ser ouvidos em listas ou programas de autor nas rádios dedicadas às músicas do mundo. Uma grande parte das salas de espectáculos internacionais passaram a ter regularmente fado no seu programa, augurando bom presságio para as gerações vindouras.

Atualmente, o fado para além de fazer parte do habitual circuito de emigração, perfila internacionalmente nos festivais de world music e em salas de prestígio, assumindo-se como uma música portuguesa globalizada, conquistando novos públicos.

Em 27 de Novembro de 2011 o comité da UNESCO reunido em Bali na Indonésia, promulgou o fado - Património Cultural Imaterial da Humanidade, esta boa nova foi notícia de abertura de todos os noticiários televisivos, constituindo assim um novo motivo de orgulho para esta canção portuguesa, cada vez mais pertença de todos.


O fado está na moda! Nestes últimos anos tem-se assistido à chegada de muitos jovens músicos assim como de novas vozes. As rádios e os meios de comunicação de forma geral estão mais atentos ao que se passa no fado, inclusive podemos ouvir fados ou temas afadistados em rádios que anteriormente não tinham essa tradição. A RTP tem lançado concursos de fado para descobrir e divulgar novos talentos e por sua vez a RDP lançou a rádio online Antena 1 Fado.

Do ponto de vista icónico muitas marcas associam o fado à sua publicidade assim como vários designers se inspiram no fado para desenvolver o seu grafismo.

Para assinalar os 12 anos em Portugal, a revista Vogue fez 5 capas diferentes no número de Novembro de 2014 com várias fadistas fotografadas pelo músico Bryan Adams, cujo hobby é fotografar gente famosa das artes.

Hoje em dia pode-se dizer que o fado é uma indústria dinamizadora da economia portuguesa que tem gerado inúmeros postos de trabalho. Existe um turismo vocacionado para o fado, abrem novas casas de fado e consolidam-se mais as antigas, há cada vez mais fadistas nos grandes festivais, inclusive um festival inteiramente dedicado ao fado em Lisboa – o Caixa Alfama. O fado faz também parte do menu dos congressos de empresas e outros eventos que se realizam em Portugal, etc..

 

O fado assumiu de vez a identidade de ser português sem qualquer tipo de pudor.
Em suma, o fado está de boa saúde e recomenda-se.

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